No dia sete de outubro de dois mil e um, Estados Unidos e países aliados avançaram com suas bombas sobre o Afeganistão. Sob a sombra fantasma de duas imponentes torres há pouco derrubadas e amparado pela histeria anti-terrorista, George Bush conduziu todo o processo com ferrenha determinação. Para prová-la, não cansou de invocar Deus em seu discurso, de forma a dar a entender que servia a uma Lei maior que todas as leis. Também definiu claramente seus “inimigos objetivos”: os combatentes terroristas ilegais. A maior democracia da América parecia não escutar os ecos totalitários presentes nos pronunciamentos de seu chefe de Estado.
Para períodos excepcionais, medidas excepcionais. E seguiram-se Atos Patrióticos e leis anti-terroristas, que permitiam, contra aqueles arbitrariamente considerados combatentes terroristas ilegais, julgamentos militares sem júri e práticas de interrogatório dificilmente distintas de tortura. Giorgio Agamben é o pensador italiano que se debruçou sobre o conceito de Estado de Exceção. Ele percebeu que a aplicação da lei não pode ser dela deduzida automaticamente, posto que a lei considera referentes abstratos e deve inserir-se em situações concretas. Neste espaço aberrante entre a lei e sua realização efetiva, poderia existir o Estado de exceção.
Em outros termos, se o Executivo governa com decretos que arranham a Constituição, há risco de Estado de Exceção. O que significa Guantánamo, a irmã latina da Casa Branca, senão isso? Em nome da segurança nacional, o Estado entra em espaços que não lhe cabem. Conseqüentemente, ferem-se direitos civis essenciais.
A adesão nacional ao projeto foi marcante, já que Bush foi reeleito. No entanto, a enorme crise econômica, em parte agravada pelos vultosos gastos com duas guerras, foi mudando gradativamente a posição do eleitorado.
Pode ser que Maquiavel dissesse que foi só com muita “fortuna” e aparentando mais “virtú” do que realmente possuía que Barack Obama foi eleito. Dentre suas promessas de campanha estava a retirada de tropas do Iraque. Demorou muito mais do que o esperado, mas a saída do Iraque está acontecendo. De forma lenta, região por região. Garantiu-se ainda a manutenção de cinqüenta mil soldados, com o suposto objetivo de treinar as forças iraquianas para que estejam bem preparadas para o combate contra as milícias rebeldes. E é com base nesse modelo que o Afeganistão será desocupado.
Não dá para passar sem falar de interesses geopolíticos inconfessáveis e da força da maior indústria bélica do mundo. Há também a certeza do orgulho ferido. Retirar as tropas agora é apenas uma forma de reduzir a derrota simbólica. O binômio Afeganistão/Iraque é como um Vietnã do século vinte e um para os Estados Unidos. Para o povo norte-americano, é cada vez mais clara sensação de uma guerra inútil e ociosa. Uma guerra que, além de violar, segundo certa interpretação, alguns tópicos da Convenção de Genebra e manchar a imagem do país, trouxe prejuízos à economia e até mesmo à “auto-estima nacional”. O conceito de “auto-estima” nacional pode parecer vago e etéreo, mas talvez tenha algo a ensinar à máquina de guerra norte-americana. Novamente, em nome de uma repaginação grotesca da doutrina do Destino Manifesto, traíram-se alguns dos princípios fundadores da democracia norte-americana.
Não há dúvidas de que isso já tinha sido feito antes no quintal, na copa e até na sala de jantar do Tio Sam. Mas agora a mansão está sendo reformada e reduzida. Apertada em cômodos menores, a população enxerga mais claramente os erros desta política internacional famigerada e imperialista. As conseqüências maiores de todo o processo, só o tempo dirá. O fato é que, poucas vezes em sua história, os Estados Unidos estiveram tão preocupados em cuidar de seu próprio jardim.
João Saran
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