Não é recente a tendência humana para a competição. Pode até ser algo imemorial, registrado em forma de pintura rupestre nas paredes da natureza dos homens. Curiosos, no entanto, são os avatares que essa sina toma nesses tempos de incertezas e de falsas seguranças.
Por mais que se afirme (e se comprove) que a vida profissional tornou-se um território praticamente bélico, parece que a competição dá-se ainda mais ferozmente na vida privada. Digo, na comparação que cada pessoa faz da sua vida privada com a de outra. A referida competição manifesta-se ainda mais em alguns curiosos traços do foro íntimo das pessoas, os quais aparentemente serviam como refúgio das constantes batalhas do “mundo corporativo”.
Os indivíduos começaram a se vangloriar por serem melhores pais e filhos do que seus vizinhos. Por terem suas casas mais limpas do que seus parentes menos abastados. Por saberem se comunicar mais e “melhor” do que seus semelhantes que não dispõem de tanto tempo livre para o exercício da oratória. Por terem visto mais filmes aclamados e assistido os mais recentes episódios dos mais recentes seriados. Por possuírem a mais sensata explicação para os mais diversos fenômenos (inclusive sobre o próprio competir). E competem até mesmo para ver quem supostamente se divertiu mais no último feriado. No entanto, usam em todas essas medições apenas critérios previamente aceitos, os quais não parecem dar conta sequer de socorrê-los quando não conseguem vencer a competição.
É claro que há certo exagero nisso. Essas e outras práticas da vida particular podem ser realizadas por puro prazer individual ou por consciência de sua necessidade em serem praticadas. Ou podem ainda ser apenas um lastro que a vida em sociedade impõe para as atitudes pessoais. De qualquer forma, assusta que por vezes todos façam tais coisas não by themselves, mas para elevar-se em relação ao outro ou, em termos mais publicitários, para chegar de modo mais direto ao “sentir-se bem consigo mesmo”.
Guilherme Bruniera
O GARAPA
domingo, 11 de setembro de 2011
Minimizando os efeitos de uma derrota anunciada
No dia sete de outubro de dois mil e um, Estados Unidos e países aliados avançaram com suas bombas sobre o Afeganistão. Sob a sombra fantasma de duas imponentes torres há pouco derrubadas e amparado pela histeria anti-terrorista, George Bush conduziu todo o processo com ferrenha determinação. Para prová-la, não cansou de invocar Deus em seu discurso, de forma a dar a entender que servia a uma Lei maior que todas as leis. Também definiu claramente seus “inimigos objetivos”: os combatentes terroristas ilegais. A maior democracia da América parecia não escutar os ecos totalitários presentes nos pronunciamentos de seu chefe de Estado.
Para períodos excepcionais, medidas excepcionais. E seguiram-se Atos Patrióticos e leis anti-terroristas, que permitiam, contra aqueles arbitrariamente considerados combatentes terroristas ilegais, julgamentos militares sem júri e práticas de interrogatório dificilmente distintas de tortura. Giorgio Agamben é o pensador italiano que se debruçou sobre o conceito de Estado de Exceção. Ele percebeu que a aplicação da lei não pode ser dela deduzida automaticamente, posto que a lei considera referentes abstratos e deve inserir-se em situações concretas. Neste espaço aberrante entre a lei e sua realização efetiva, poderia existir o Estado de exceção.
Em outros termos, se o Executivo governa com decretos que arranham a Constituição, há risco de Estado de Exceção. O que significa Guantánamo, a irmã latina da Casa Branca, senão isso? Em nome da segurança nacional, o Estado entra em espaços que não lhe cabem. Conseqüentemente, ferem-se direitos civis essenciais.
A adesão nacional ao projeto foi marcante, já que Bush foi reeleito. No entanto, a enorme crise econômica, em parte agravada pelos vultosos gastos com duas guerras, foi mudando gradativamente a posição do eleitorado.
Pode ser que Maquiavel dissesse que foi só com muita “fortuna” e aparentando mais “virtú” do que realmente possuía que Barack Obama foi eleito. Dentre suas promessas de campanha estava a retirada de tropas do Iraque. Demorou muito mais do que o esperado, mas a saída do Iraque está acontecendo. De forma lenta, região por região. Garantiu-se ainda a manutenção de cinqüenta mil soldados, com o suposto objetivo de treinar as forças iraquianas para que estejam bem preparadas para o combate contra as milícias rebeldes. E é com base nesse modelo que o Afeganistão será desocupado.
Não dá para passar sem falar de interesses geopolíticos inconfessáveis e da força da maior indústria bélica do mundo. Há também a certeza do orgulho ferido. Retirar as tropas agora é apenas uma forma de reduzir a derrota simbólica. O binômio Afeganistão/Iraque é como um Vietnã do século vinte e um para os Estados Unidos. Para o povo norte-americano, é cada vez mais clara sensação de uma guerra inútil e ociosa. Uma guerra que, além de violar, segundo certa interpretação, alguns tópicos da Convenção de Genebra e manchar a imagem do país, trouxe prejuízos à economia e até mesmo à “auto-estima nacional”. O conceito de “auto-estima” nacional pode parecer vago e etéreo, mas talvez tenha algo a ensinar à máquina de guerra norte-americana. Novamente, em nome de uma repaginação grotesca da doutrina do Destino Manifesto, traíram-se alguns dos princípios fundadores da democracia norte-americana.
Não há dúvidas de que isso já tinha sido feito antes no quintal, na copa e até na sala de jantar do Tio Sam. Mas agora a mansão está sendo reformada e reduzida. Apertada em cômodos menores, a população enxerga mais claramente os erros desta política internacional famigerada e imperialista. As conseqüências maiores de todo o processo, só o tempo dirá. O fato é que, poucas vezes em sua história, os Estados Unidos estiveram tão preocupados em cuidar de seu próprio jardim.
João Saran
Para períodos excepcionais, medidas excepcionais. E seguiram-se Atos Patrióticos e leis anti-terroristas, que permitiam, contra aqueles arbitrariamente considerados combatentes terroristas ilegais, julgamentos militares sem júri e práticas de interrogatório dificilmente distintas de tortura. Giorgio Agamben é o pensador italiano que se debruçou sobre o conceito de Estado de Exceção. Ele percebeu que a aplicação da lei não pode ser dela deduzida automaticamente, posto que a lei considera referentes abstratos e deve inserir-se em situações concretas. Neste espaço aberrante entre a lei e sua realização efetiva, poderia existir o Estado de exceção.
Em outros termos, se o Executivo governa com decretos que arranham a Constituição, há risco de Estado de Exceção. O que significa Guantánamo, a irmã latina da Casa Branca, senão isso? Em nome da segurança nacional, o Estado entra em espaços que não lhe cabem. Conseqüentemente, ferem-se direitos civis essenciais.
A adesão nacional ao projeto foi marcante, já que Bush foi reeleito. No entanto, a enorme crise econômica, em parte agravada pelos vultosos gastos com duas guerras, foi mudando gradativamente a posição do eleitorado.
Pode ser que Maquiavel dissesse que foi só com muita “fortuna” e aparentando mais “virtú” do que realmente possuía que Barack Obama foi eleito. Dentre suas promessas de campanha estava a retirada de tropas do Iraque. Demorou muito mais do que o esperado, mas a saída do Iraque está acontecendo. De forma lenta, região por região. Garantiu-se ainda a manutenção de cinqüenta mil soldados, com o suposto objetivo de treinar as forças iraquianas para que estejam bem preparadas para o combate contra as milícias rebeldes. E é com base nesse modelo que o Afeganistão será desocupado.
Não dá para passar sem falar de interesses geopolíticos inconfessáveis e da força da maior indústria bélica do mundo. Há também a certeza do orgulho ferido. Retirar as tropas agora é apenas uma forma de reduzir a derrota simbólica. O binômio Afeganistão/Iraque é como um Vietnã do século vinte e um para os Estados Unidos. Para o povo norte-americano, é cada vez mais clara sensação de uma guerra inútil e ociosa. Uma guerra que, além de violar, segundo certa interpretação, alguns tópicos da Convenção de Genebra e manchar a imagem do país, trouxe prejuízos à economia e até mesmo à “auto-estima nacional”. O conceito de “auto-estima” nacional pode parecer vago e etéreo, mas talvez tenha algo a ensinar à máquina de guerra norte-americana. Novamente, em nome de uma repaginação grotesca da doutrina do Destino Manifesto, traíram-se alguns dos princípios fundadores da democracia norte-americana.
Não há dúvidas de que isso já tinha sido feito antes no quintal, na copa e até na sala de jantar do Tio Sam. Mas agora a mansão está sendo reformada e reduzida. Apertada em cômodos menores, a população enxerga mais claramente os erros desta política internacional famigerada e imperialista. As conseqüências maiores de todo o processo, só o tempo dirá. O fato é que, poucas vezes em sua história, os Estados Unidos estiveram tão preocupados em cuidar de seu próprio jardim.
João Saran
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